sábado, 19 de janeiro de 2013

Qual a cara do remorso?



Remorso 

Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Olavo Bilac


Eu compreendo a felicidade como algo duradouramente inalcançável e que por alguns instantes pode se fazer presente em lampejos de alegria. Alegria essa composta pela satisfação e pela saciedade. Expressar isso fica na maioria das vezes a cargo dos dentes expostos naquilo que chamamos sorriso. Hora ou outra ainda temos o som das chamadas gargalhadas para que o outro perceba em nós toda suposta alegria.
Sorrir é pra mim, dos atos humanos de nosso tempo, um dos mais fáceis. Construir a feição da alegria é obrigação prematura em nossas vidas, encucada em nossas mentes. Devemos contorcer nossos lábios para que o mundo entenda que podemos viver nele. Entretanto não se esqueça de que nascemos chorando. Chorar que é coisa nata.
Perceba que é raro que o choro esteja presente em nossos momentos de alegria. Entretanto quando alheios vemos outros chorarem e se ainda nos resignamos a saber o porquê, trazemos no inconsciente que assim que ouvirmos a resposta saberemos que ali alguma dor foi infligida. Nós a aguardamos nas lágrimas.
Mas me conte como você descreve a face do remorso? Quais formas ganham nossos lábios, quais sons emitimos, onde nossas mãos se apoiam?
Tenho por bom tempo refletido e creio que o remorso só vem à superfície onde ele nasce e isso acontece quando refletimos, na solidão. Não na solidão que se abate dos ímpares, mas aquela em que mesmo de braços dados com outrem faz teus olhos encararem o nada e fazer com que você, antes de tudo, rememore.
Não a vergonha que te deixa rubro, mas aquela que te faz esconder entre os ombros,  ela é que abre porta para que o remorso avance. É nosso julgo que cria o remorso.
Não são os olhos fixos no chão, os ombros que usa em auxílio para tentar fazer-te invisível, mas a consciência de inúmeras coisas que te causam puro asco de si mesmo, coisas que provavelmente se arrepende de ter feito. O remorso é puro tormento e é só quando os olhos do mundo que te aceita se desviam, quando os flashes param, quando só estão juntos você e seu suposto erro que o remorso se apresenta.
Se pedires para que o remorso seja mostrado, você pode conseguir tristeza, pode conseguir medo, desespero, cansaço, falsidade... Você só vai conseguir trechos dessa história longínqua que permeia os detentores dessa praga que amordaça, mas nunca mais que uma página. Nunca mais que um lampejo. Um lapso.

Ouro Preto, 4 de janeiro de 2013.




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